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sábado, 27 de setembro de 2025

FILOSOFIA E MAÇONARIA: Revelando O Templo Invisível Do Pensamento - Livro na Amazon

 O nascimento de uma obra necessária

Publicar um primeiro livro é mais do que realizar um sonho: é lançar ao mundo uma semente que passa a caminhar por conta própria, dialogando com cada leitor de maneira única. Com “Filosofia e Maçonaria”, apresento ao público um trabalho que nasceu do entrelaçamento entre a reflexão filosófica e o universo simbólico da Maçonaria, buscando iluminar caminhos de conhecimento, diálogo e compreensão.

A obra não é apenas uma coletânea de conceitos. É fruto de pesquisa, vivência e inquietação intelectual, organizada de modo a servir tanto ao Maçom que deseja aprofundar-se em fundamentos teóricos quanto ao leitor profano (não iniciado) interessado em compreender o que há por trás dos símbolos, lendas e metáforas que atravessam séculos.

Ao longo das páginas, percorro temas centrais que unem filosofia e maçonaria: a busca pela verdade, o sentido da liberdade, a ética da construção coletiva, a espiritualidade que se ergue sobre colunas de razão. Cada capítulo foi tecido como convite a uma jornada de reflexão, onde a sabedoria antiga dialoga com as urgências do mundo contemporâneo.

Mais que um livro, “Filosofia e Maçonaria” pretende ser uma ferramenta de consulta, um marco inicial para estudos, debates e aprofundamentos. Uma obra sólida, feita para resistir ao tempo e oferecer referências a quem trilha os graus do conhecimento e da vida.

Publicar este trabalho é também um ato de partilha. O livro já está disponível para aquisição e convido todos a conhecerem-no, não apenas como leitura, mas como experiência. Afinal, todo livro é uma porta que se abre – e cabe ao leitor atravessá-la.

Disponível na Amazon. Prestigiem.

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quarta-feira, 23 de abril de 2025

A Vida: Entre a Causa Perdida e a Oportunidade

 Por: Luis Genaro L. Fígoli (Mestre Moshe 33°)


A Vida: Entre a Causa Perdida e a Oportunidade (Ampliado)

A vida é, paradoxalmente, o mais profundo mistério e o mais cotidiano dos fenômenos. A cada instante, somos confrontados com a sua fragilidade e transitoriedade, mas também com o seu brilho fugaz – aquele que nos convida a explorá-la, a encontrar significados, a criar. Pensar a vida como uma "causa perdida" ou como uma "oportunidade" é enfrentar a própria condição humana: somos seres conscientes da nossa finitude, mas, ao mesmo tempo, desejosos de transcendê-la. Essa tensão é o motor de muitas das reflexões filosóficas mais profundas.

A vida como causa perdida: a sombra da morte

A morte é a única certeza que carregamos desde que nascemos. Para alguns, isso basta para declarar a vida como uma causa perdida. Afinal, para que nos esforçarmos, amarmos ou construirmos, se tudo será apagado pela passagem do tempo? Essa visão, por vezes associada ao niilismo, foi explorada por filósofos como Arthur Schopenhauer, que via a existência como um ciclo de desejos insaciáveis e sofrimentos inevitáveis. Para ele, viver era ser arrastado por uma força cega e irracional – a "vontade de viver" – que nos condenava ao desespero.

No entanto, mesmo Schopenhauer encontrava alguma beleza na contemplação estética. A arte, para ele, era um refúgio da dor da existência, um momento em que podíamos nos libertar temporariamente da tirania da vontade. Assim, mesmo na visão mais pessimista da vida, há espaço para algo que transcenda a pura negatividade.

Por outro lado, filósofos contemporâneos como Martin Heidegger ampliaram essa ideia, argumentando que a morte não é apenas um fim, mas uma presença constante na vida. Em sua obra Ser e Tempo, Heidegger descreve o ser humano como um "ser-para-a-morte". Isso não significa que vivemos obcecados pela morte, mas que ela é o horizonte último que dá sentido às nossas escolhas. A consciência da finitude não nos paralisa, mas nos desperta para a urgência de viver autenticamente.

A vida como oportunidade: a celebração da existência

Se a morte é inevitável, a vida, em contrapartida, é uma oportunidade única. Muitos filósofos e pensadores encontraram na transitoriedade da vida uma razão para celebrá-la. Friedrich Nietzsche, por exemplo, rejeitava o pessimismo de Schopenhauer e colocava a vida como algo que deve ser afirmado em toda a sua complexidade. Sua ideia do "amor fati" – o amor ao destino – nos convida a aceitar tudo o que a vida traz, tanto as alegrias quanto os sofrimentos, como partes intrínsecas de uma existência plena.

Nietzsche propôs o conceito do eterno retorno, uma ideia hipotética segundo a qual cada momento da nossa vida se repetiria infinitamente. Para ele, a verdadeira medida de uma vida bem vivida seria a capacidade de desejar que ela fosse repetida da mesma forma, eternamente. Essa visão nos desafia a viver com intensidade, a aproveitar cada instante como se fosse eterno.

Outro exemplo é Albert Camus, que, ao refletir sobre o absurdo da existência, encontrou um sentido paradoxal na própria falta de sentido. Em O Mito de Sísifo, Camus afirma que, embora a vida não tenha um propósito intrínseco, ela pode ser vivida plenamente ao abraçarmos o absurdo. A imagem de Sísifo, condenado a rolar eternamente uma pedra montanha acima, não é a de um homem derrotado, mas de alguém que encontra alegria no próprio esforço. Para Camus, "a luta para alcançar o cume é suficiente para preencher o coração de um homem".

Os ciclos da vida: equilíbrio entre perda e renovação

A vida é marcada por ciclos: nascimento e morte, crescimento e decadência, começos e fins. Esses ciclos nos lembram que a existência é impermanente, mas também cheia de renascimentos. O filósofo estoico Marco Aurélio refletia sobre essa natureza cíclica da vida em suas Meditações, observando que tudo na natureza segue um fluxo. Para ele, aceitar esse fluxo era a chave para viver com tranquilidade e sabedoria. "Tudo o que acontece é tão natural quanto as flores que desabrocham na primavera e as folhas que caem no outono", escreveu.

Essa percepção também aparece nas tradições orientais, como no budismo. O conceito de impermanência (ou anicca) é central na filosofia budista, que nos ensina a aceitar que tudo na vida é transitório. A dor, a alegria, as perdas e os ganhos – todos passam. No entanto, essa impermanência não deve ser motivo de tristeza, mas de gratidão. Cada momento é único precisamente porque é passageiro.

A alegria como resistência

Como, então, encontrar alegria em meio à transitoriedade e à certeza da morte? A resposta pode estar na forma como vivemos o presente. A alegria, nesse sentido, não é um estado permanente, mas uma atitude, um modo de estar no mundo. Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, descreveu em Em Busca de Sentido como, mesmo nas condições mais extremas, o ser humano pode encontrar sentido e beleza. Para Frankl, o sentido da vida não é algo dado, mas algo que criamos, mesmo nas situações mais adversas.

Além disso, a alegria pode ser vista como uma forma de resistência. Em um mundo marcado pela fragilidade e pela incerteza, celebrar a vida é um ato de coragem. É o que nos ensina o poeta Fernando Pessoa, quando diz: "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena." A vida, com todos os seus desafios, ainda é um presente incomensurável.

A vida como paradoxo: causa perdida e oportunidade

No fundo, a vida é simultaneamente uma causa perdida e uma oportunidade. É perdida porque sabemos que terá um fim, mas é uma oportunidade porque, enquanto dura, podemos preenchê-la com significado. Essa dualidade é o que torna a existência tão rica e fascinante. Como escreveu o filósofo francês Blaise Pascal: "O homem não é nem anjo nem besta, mas algo entre os dois." Vivemos divididos entre a nossa fragilidade e a nossa capacidade de transcendê-la.

Talvez, portanto, a melhor maneira de viver seja aceitar esse paradoxo. Não precisamos escolher entre a causa perdida e a oportunidade – podemos abraçar ambos. A morte, longe de ser um inimigo, pode ser um lembrete constante de que cada momento conta, de que cada encontro é precioso, de que cada dia é uma chance de recomeçar. Afinal, como disse o poeta Mario Quintana: "A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa."

E que tarefa mais nobre poderíamos desejar?

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

“ATRAVÉS DE UMA PALMEIRA, EU VI O SOL POENTE”

 

Crônica

Por: M.´.I.´. Luis Genaro L. Fígoli

33°

O dia já findava quando parei sob a sombra da palmeira. O céu tingia-se de laranja e púrpura, e o sol, em sua descida majestosa, refletia sobre minhas retinas uma beleza que, por mais que tentasse, jamais poderia capturar em palavras. Ali, em meio ao silêncio e ao vento que balançava as folhas, percebi o quanto tudo é transitório — o sol que se põe, o vento que sopra, as folhas que caem. A vida, afinal, é feita de ciclos, e cada momento que vivemos é ao mesmo tempo o início e o fim de algo.

Lembrei-me de Heráclito, o filósofo do devir, que dizia: “Nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes, pois o rio não é o mesmo, assim como o homem já não é o mesmo”. Naquele instante, fui tomado por um sentimento agridoce. O sol poente era o mesmo que eu vira no dia anterior, mas não era. Aquele momento era único, irrepetível, e, como tudo na vida, passaria.

A palmeira, imóvel na sua altura serena, parecia ser testemunha de algo maior. Quantos sóis já haviam se posto sob seus galhos? Quantas pessoas haviam passado, olhado para ela e seguido seus caminhos? Talvez nem a palmeira fosse eterna. Talvez, no seu tempo, ela também estivesse cumprindo seu ciclo, vivendo um dia de cada vez, sem pressa, sem angústia, apenas existindo.

É curioso como buscamos controlar o incontrolável. Fazemos planos para o futuro, tememos o que virá, lamentamos o que passou. Mas, como disse o poeta Horácio em seus versos imortais: “Carpe diem, quam minimum credula postero” — colha o dia, confiando o mínimo possível no amanhã. Não se trata de ignorar o futuro, mas de viver o presente com intensidade e consciência, pois ele é tudo o que temos.

O sol, agora quase completamente escondido no horizonte, parecia sussurrar uma verdade universal: tudo começa e tudo acaba. Há beleza na transitoriedade. Se a vida fosse eterna, talvez perdêssemos a capacidade de enxergar a preciosidade de cada instante. É o fim que dá sentido ao começo. É o efêmero que torna cada momento sagrado.

Lembrei-me também de Fernando Pessoa, que, em sua prosa poética, escreveu: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Talvez viver bem seja isso: aceitar os ciclos, acolher o que vem, deixar partir o que se vai, e, principalmente, permitir-se sentir. Porque, no fundo, viver não é sobre acumular coisas ou momentos, mas sobre estar presente.

Enquanto o céu escurecia e a primeira estrela surgia, senti uma paz profunda. A palmeira continuava ali, imóvel, como um guardião do tempo. O sol havia desaparecido, mas eu sabia que ele voltaria. Assim como tudo na vida — o que vai, volta; o que morre, renasce. E, nesse eterno ciclo de começos e fins, cabe a nós apenas viver, um dia de cada vez, com o coração aberto para o que vier.

 

Bibliografia

Heráclito. Fragmentos. Tradução de Gerd Bornheim. Editora Vozes.

Horácio. Odes. Tradução de J. A. de Carvalho. Editora Martins Fontes.

Pessoa, Fernando. Livro do Desassossego. Organização de Richard Zenith. Companhia das Letras.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

DEUS É MASCULINO? REFLEXÕES FILOSÓFICAS, ANTROPOLÓGICAS E TEOLÓGICAS.

A Controvertida figura "masculina" de Deus.

Por M.´.I.´. Luis Genaro L. Figoli (Moshe)

G.´. 33°


 

A ideia de Deus como uma figura masculina tem sido predominante em muitas tradições religiosas ao longo da história. Essa representação não é simplesmente fruto de uma visão casual, mas o resultado de um complexo entrelaçamento de fatores culturais, históricos e teológicos. Este artigo investiga por que, em diversas tradições religiosas, Deus é concebido como masculino, usando perspectivas filosóficas, antropológicas e teológicas, com o suporte de citações e referências bibliográficas.

 

1. Origens Históricas e Antropológicas

Historicamente, a predominância de sociedades patriarcais foi um fator determinante para a masculinização da figura divina. Em culturas antigas, o poder e a autoridade eram frequentemente associados ao homem, enquanto a mulher era vinculada a funções reprodutivas e domésticas. Essa divisão de papéis foi refletida nas mitologias e nas religiões.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz[1], a religião é "um sistema de símbolos que atua para estabelecer estados de ânimo e motivações poderosas e duradouras nos homens" (Geertz, 1973). Em sociedades patriarcais, os símbolos religiosos frequentemente reforçam a estrutura hierárquica existente, incluindo a associação da divindade suprema com características masculinas, como força, autoridade e racionalidade.

Além disso, em muitas civilizações antigas, os deuses masculinos eram retratados como guerreiros ou criadores, enquanto as deusas femininas eram associadas à fertilidade e à natureza. O filósofo e historiador Mircea Eliade [2]argumenta que "as representações de divindades masculinas como criadores e legisladores refletem as estruturas sociais e políticas de suas respectivas culturas" (Eliade, 1957).

 

2. A Teologia e a Masculinidade de Deus

Teologicamente, a masculinização de Deus é evidente em tradições monoteístas como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Nessas religiões, Deus é frequentemente referido como "Pai". No cristianismo, por exemplo, Jesus Cristo chama Deus de "Pai" em diversas passagens do Novo Testamento, como em Mateus 6:9: "Pai nosso, que estás nos céus". Essa linguagem reflete não apenas uma relação de proximidade e cuidado, mas também a autoridade patriarcal.

Segundo o teólogo Karl Barth[3], "a masculinidade de Deus nas Escrituras não implica que Ele seja literalmente homem ou masculino, mas reflete a relação de Deus com a humanidade em termos de autoridade e iniciativa" (Barth, 1956). Para Barth, o uso de termos masculinos como "Pai" e "Senhor" é mais simbólico do que ontológico, significando o papel de Deus como criador e governante.

No entanto, a teóloga feminista Elizabeth Johnson[4] critica essa visão, argumentando que "a linguagem exclusivamente masculina para Deus limita a compreensão humana da divindade e perpetua estruturas patriarcais" (Johnson, 1992). Johnson propõe a inclusão de metáforas femininas e neutras para Deus, a fim de refletir a totalidade do mistério divino.

 

3. A Filosofia e as Representações de Gênero em Deus

Do ponto de vista filosófico, a questão da masculinidade de Deus está ligada à linguagem e aos conceitos humanos de transcendência. Como apontado por Ludwig Feuerbach,[5] "Deus é a projeção das qualidades humanas idealizadas" (Feuerbach, 1841). Em sociedades patriarcais, é natural que essas qualidades idealizadas sejam associadas ao masculino.

A filósofa Simone de Beauvoir[6], em sua obra O Segundo Sexo, argumenta que "o homem foi historicamente elevado à posição de sujeito universal, enquanto a mulher é relegada ao 'outro'" (Beauvoir, 1949). Essa percepção se reflete na representação masculina de Deus, que é visto como o sujeito criador e transcendental.

Já o filósofo Paul Tillich [7]aborda a questão de maneira mais simbólica. Para Tillich, Deus está "além do gênero", mas a linguagem humana é limitada e recorre a metáforas masculinas porque elas foram historicamente associadas ao poder e à autoridade (Tillich, 1951).

 

4. Questionamentos e Reformulações Contemporâneas

Nos últimos séculos, teólogos, filósofos e antropólogos têm questionado a exclusividade da masculinidade de Deus. Movimentos feministas dentro da teologia, como o trabalho de Rosemary Radford Ruether[8], defendem que "uma verdadeira teologia deve incluir imagens femininas de Deus" (Ruether, 1983). Ruether argumenta que a predominância de imagens masculinas reflete mais as estruturas sociais do que a realidade divina.

Além disso, algumas tradições religiosas não ocidentais oferecem uma perspectiva diferente. No hinduísmo, por exemplo, o divino é frequentemente representado tanto em formas masculinas quanto femininas, como Shiva e Shakti, que simbolizam a complementaridade entre os gêneros.

 

5. Onde se encontra a mulher na trindade cristã?

Na teologia cristã tradicional, a Trindade é composta por três pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Esses são geralmente descritos em termos de uma relação espiritual, e não biológica ou de gênero humano. Contudo, a questão de onde a mulher é representada ou se encontra na Trindade tem sido objeto de reflexão teológica, espiritual e cultural ao longo dos séculos.

 

a. A Trindade não é propriamente "masculina"

Embora o cristianismo frequentemente use termos masculinos para descrever as pessoas da Trindade (Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo, que muitas vezes é referido com pronomes masculinos em línguas como o português), Deus não é limitado por gênero humano. Teologicamente, Deus transcende categorias como masculino ou feminino, sendo "espírito" (João 4:24).

 

Deus Pai: A linguagem de "Pai" é simbólica e relacional, indicando proximidade e cuidado paternal, mas não implica gênero biológico.

Jesus Cristo: Como a encarnação do Filho, Jesus foi historicamente homem, mas em sua divindade, Ele também transcende o gênero.

Espírito Santo: Em algumas tradições cristãs, o Espírito Santo é associado a qualidades tradicionalmente consideradas "femininas", como consolo, nutrição e sabedoria.

 

b. Representações femininas de Deus e o surgimento da mulher na tradição bíblica

A Bíblia tem passagens que associam características divinas a imagens femininas, especialmente no que diz respeito ao cuidado e ao amor maternal. Alguns exemplos incluem:

Isaías 66:13: "Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu os consolarei."

Deuteronômio 32:18: Deus é descrito como aquele que "dá à luz" o povo de Israel.

Mateus 23:37: Jesus compara seu desejo de proteger Jerusalém à ação de uma galinha que reúne seus pintinhos debaixo das asas.

Esses textos mostram que Deus é compreendido tanto em termos paternais quanto maternais, o que sugere que a plenitude de Deus inclui aspectos tradicionalmente atribuídos a ambos os gêneros.

A origem da mulher, de acordo com a Bíblia, foi extraordinária e sobrenatural. O relato bíblico, que se passa no Jardim do Éden, declara que Deus criou o primeiro homem, Adão, a partir da terra, após soprar em suas narinas o espírito, isto é, o fôlego divino; em seguida, planejando criar a primeira mulher, o Criador ordenou que Adão desse nome aos animais. Ao atender à ordem, Adão percebeu que cada em espécie de animal havia pares, pois de cada animal havia macho e fêmea, e então sentiu falta de não haver nada na criação que lhe correspondesse inteiramente, nenhum ser semelhante que lhe fizesse companhia.[9]

O texto bíblico é claro em dizer que a mulher foi criada como equivalente e semelhante ao homem: "Disse o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só. Farei para ele uma auxiliadora que lhe seja idônea”. O termo "idônea" pode ser traduzido também como "correspondente", "semelhante", "complementar", 'equivalente", "à sua altura" e "companheira". O fato de Eva ter sido criada por Deus a partir de uma costela do corpo de Adão significa que a mulher tem a mesma natureza e essência dele, tanto espiritualmente quanto materialmente, como sugere o próprio texto; além disso, significa que a mulher foi criada como sua companheira, ou seja, está a seu lado, assim como, simbolicamente, estão as costelas.[10]

Nesse sentido, interpreta-se que o osso da costela aludiria à igualdade entre homem e mulher, dado que não foi utilizado um osso inferior (um osso do pé, por exemplo), nem um osso superior (do crânio, por exemplo), mas sim um osso do lado. Outra interpretação, em sintonia com a primeira, lembra que a mulher é protetora da vida e do que há de mais precioso no ser humano, dado que os ossos da costela protegem o coração. Vale notar que o coração, enquanto órgão central do organismo, é utilizado quase como sinônimo de "alma" na linguagem bíblica, abrangendo emoções, sentimentos, pensamentos, consciência, vontade e todos os outros aspectos imateriais do ser humano, como se percebe em muitas passagens do Antigo Testamento.[11]

c. Maria e a representação feminina no cristianismo

No cristianismo, especialmente nas tradições católica e ortodoxa, Maria, mãe de Jesus, ocupa um papel central como a figura feminina mais exaltada. Embora não faça parte da Trindade, Maria é frequentemente vista como uma ponte simbólica para a experiência feminina na fé cristã.

Maria é chamada de "Mãe de Deus" (Theotokos) por ser a mãe de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Sua humildade, obediência e maternidade são exaltadas como virtudes, e ela é vista como intercessora e modelo para os cristãos.

 

d. O Espírito Santo e a Sabedoria (Sophia)

Em algumas tradições cristãs, especialmente na mística e na teologia oriental, o Espírito Santo[12] é associado à Sabedoria Divina (em grego, "Sophia"). A Sabedoria é, em alguns textos bíblicos, personificada no feminino, como em Provérbios 8:

"A Sabedoria clama em alta voz; nas ruas levanta a sua voz" (Provérbios 8:1).

Essa personificação feminina tem sido interpretada por alguns teólogos como uma representação do aspecto feminino de Deus.

 

e. A mulher e a Imago Dei

Na teologia cristã, homens e mulheres são igualmente criados à imagem e semelhança de Deus (Imago Dei), conforme Gênesis 1:27:

"Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."

Isso implica que, em Deus, tanto o masculino quanto o feminino têm sua origem e reflexo. Portanto, a mulher está plenamente incluída na essência divina e na relação com Deus.

Embora a Trindade cristã não seja explicitamente associada ao feminino, Deus é entendido como transcendente ao gênero, e atributos tradicionalmente femininos (como cuidado, compaixão e sabedoria) são aplicados a Ele em várias passagens bíblicas. Além disso, figuras como Maria e a Sabedoria Divina (Sophia) desempenham papéis significativos para representar aspectos femininos da fé cristã. Assim, a mulher encontra-se plenamente integrada na relação com Deus e na reflexão teológica cristã.

 

6. E o G.´.A.`.D.´.U.´.?

 

a.    O Grande Arquiteto do Universo como gênero

Todo iniciado na Maçonaria sabe que uns dos principais requisitos para ingresso na Ord.´. é a crença num Criador Incriado. Além disso, de acordo com os Landmaks[13]é necessário que o candidato à iniciação também acredite na “vida eterna”, chamada pelo lendário Maçom Albert Pike[14] como “vida futura”. Na verdade, na Ord.´., a crença é num Criador, que pode ser Deus para o Cristão, Yahweh para os Judeus, Allah para a religião Islâmica. Não se entra no mérito do dogma, até porque a Maçonaria não professa nenhuma religião em especial, embora muito influenciada pela religião judaica e cristã.

Mas ainda assim persiste alguma polêmica: o uso da Bíblia como Liv.´. da L.´. em alguns Ritos, pode chegar a constranger àqueles que não professam este livro como sendo o de sua Religião, segundo a tradição, escrito por inspiração divina. Outros Ritos, como o Moderno, utiliza um Livro em branco, com o objetivo de eliminar a questão dogmática das religiões, que se baseiam na Bíblia.

Não há referências de Deus como Geômetra, ou como Arquiteto dos Mundos, na Bíblia, mas o Deus cristão é referido como "Arquiteto do Universo" em algumas obras: 

  • Em Institutas da Religião Cristã (1536)[15], João Calvino refere-se repetidamente ao Deus cristão como "Arquiteto do Universo". 
  • Na epístola aos hebreus, em Hb 11,9-11, diz-se: "pois esperava a cidade que tem fundamentos; cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus". 

O conceito de "Grande Arquiteto do Universo" também aparece na Gnose ou Gnosticismo. Na Gnose, o Grande Arquiteto do Universo é o Demiurgo, o Deus do Antigo Testamento.

O M.´. M.`. Eduardo Neves, em artigo intitulado “O Grande Arquiteto do Universo”[16], escreve e esclarece:

A imagem eternizada por Michelangelo na Capela Sistina – a de um ancião de cabelos brancos, adotada como representação costumeira de Deus por grande parcela da civilização ocidental – ainda que enquanto obra de arte seja belíssima, não é suficiente para a compreensão da onipotência, onipresença e onisciência divinas. Em verdade, ousaríamos dizer que é, de fato, inapropriada. Ora, qualquer que seja o ser, se este for limitado por uma forma, não pode ter tais características. Portanto, seguindo este raciocínio, concluímos que a imagem de Deus como um velho senhor sentado em um trono de nuvens é apenas o retrato humanizado do pensamento de uma época, não devendo ser levado em conta para uma reflexão mais aprofundada. Deus é o amor infinito, a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, é aquele que não tem começo nem fim, e não pode ser conhecido através dos esforços intelectuais de uma mente humana que, por mais avançada ou capaz que seja, está sujeita a limitações. Deus, portanto, é uma força que não pode ser analisada ou mensurada, só podendo ser sentida e contemplada através de suas manifestações. Esta força é o que os maçons chamam de Grande Arquiteto, gerador do universo, do homem e da vida em todas as suas formas.

Assim, entendo, que o GADU é uma manifestação atemporal, assexuada, onipresente, onisciente. Uma energia manifestada. Quem É, sempre FOI e sempre SERÁ. Insondável na sua natureza. Inteligível em seu propósito, de “fazer feliz a humanidade”, com sua infinita bondade com a Criação.

Em toda a caminhada Maçônica, é quase impossível distinguir no Rito o gênero, embora a tradição judeu/hebraica/cristã, em especial as pinturas realizadas desde a Idade Média, mostre-o como um “velhinho de barba branca e do gênero masculino”, talvez influenciado por uma geração humana dominada pelo patriarcado, e o indevido uso da palavra “Pai” que dá uma conotação masculinizada do termo. Aliás é importante repor que, na origem, Deus era Yahweh, uma tradução forçada do hebraico tetragrama hebraico יהוה, que é o nome de Deus na Bíblia hebraica, é que composto por quatro consoantes hebraicas: י (yod), ה (he), ו (vav), ה (he). 

A transliteração do tetragrama para o português é YHWH, mas também pode ser escrita como YHVH. O tetragrama é o nome pessoal de Deus que mais aparece na Bíblia, aparecendo cerca de 7 mil vezes. No entanto, a pronúncia original do tetragrama é desconhecida, pois a língua hebraica é quase extinta. O termo Jeová é uma transliteração do tetragrama, resultante da adição dos pontos vocálicos de Adonai ao tetragrama. Adonai é uma palavra que significa "meu Senhor". Outra transliteração do tetragrama é Javé, que vem de YaHVeH. Lembrando, entretanto, que originalmente o nome de Javé (outra forma) era impronunciável, ou seja, o nome completo não poderia ser pronunciado, apenas soletrado, em forma de respeito. O iniciado na Ord.´. sabe a importância das palavras soletradas, do qual não vou entrar para respeitar nossos segredos.

Por outro lado, A palavra "Deus" aparece na Bíblia no livro de Gênesis, no capítulo 1, versículo 1, quando diz "No princípio criou Deus os céus e a terra". 

Na Bíblia, Deus tem vários nomes, entre eles: 

·     El Shaddai: Significa "Todo-poderoso" e foi revelado a Abraão em Gênesis 17,1

·     Elohim: Um nome genérico para Deus

·     Adonai: Um nome genérico para Senhor

·     Javé: O nome próprio do Deus dos hebreus, que significa "Ele é"

·     Tetragrama: O nome sagrado de Deus, escrito em hebraico com as quatro letras YHWH

·     Emanuel: Significa "Deus conosco" e aparece em Is 7,14

Interessante lembrar que o tetragrama hebraico יהוה tem sua origem no hebraico antigo, o nome YHWH significa em português algo como “Eu sou o que sou” ou “Eu serei quem serei”. A primeira referência a este nome foi quando Deus se revelou a Moisés no Monte Sinai: “Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU.”

Fazendo um análise livre (somos livres pensadores e percutores da Verdade) quando o Criador (ou seria a Criadora) diz “eu sou o que sou”, em que momento ele se apresenta com gênero? Ele ou Ela podem ser o que “São”. O próprio tetragrama não responde essa pergunta, que talvez não tenha resposta.

b. Os elementos “femininos” encontrados nos templos maçônicos

Já que quase impossível identificar se há gênero no GADU (eu entendo que não, em especial porque compreendo que é uma energia vital, incriada, que não se identifica com as nossas vidas mortais), podemos verificar elementos masculinos e femininos em nosso Templo e em nossos Ritos.

Vejamos. A própria Iniciação é um processo de volta ao útero da mãe. Neste caso o Temp.´. seria uma mulher. As Col.´. poderiam ser as pernas, o portal teria a equivalência à entrada do útero. Lembramos que a Inic.´. é uma mor.´. à vida prof.´.. Poderia ser à volta ao útero inviolável, protegido, e “alimentado” pela  Grande Mãe? Devemos pensar. Os nossos órgãos estariam representados pelos carg.´. em Loj.´.. Col.´. vestibulares, pernas. Col.´. de sustentação do Temp.´. (marcadas pelos 12 Sig.`. do Zod.´.) seriam as costelas? Coração, Pulmões, Sistema Nervoso, Sistema Circulatório (M.´. de Cer.´.?), Cérebro representado pelo trio V.´. M.´., Ora.´. e Sec.´. com suas funções específicas.

Nesta tese, a mulher estaria representada pelo Temp.´. Maç.´.. Precisamos lembrar que a Deusa que comanda o V.´.M.´. é Minerva, que está postada à esquerda do mesmo. O 1 Vig.´, é secundado por Hércules, o deus da Força, e o 2 Vig.´. secundado pela deusa Vênus, a deusa da Beleza, das Artes e do Amor. Como vemos, apenas Hércules estaria representando o lado masculino do Temp.´., pelas razões óbvias.

Eis, talvez a razão pela qual a Maçonaria é uma instituição masculina. A egrégora que é formada pelos II.´. que participam das sessões é completada pela energia emanada pelo Temp.´. cuja energia é essencialmente feminina, e assim complementar, em busca da Perf.´..



Conclusão

A masculinidade de Deus é um reflexo das estruturas sociais, linguísticas e culturais que moldaram as tradições religiosas ao longo da história. Embora a representação masculina de Deus tenha sido predominante em muitas culturas, é importante reconhecer que essa visão não é universal nem imutável. O debate contemporâneo sobre o gênero de Deus desafia as noções tradicionais e busca desenvolver uma compreensão mais inclusiva e abrangente do divino.

 

Referências

Barth, Karl. Church Dogmatics. T&T Clark, 1956.

Beauvoir, Simone de. O Segundo Sexo. Gallimard, 1949.

Eliade, Mircea. The Sacred and the Profane. Harcourt, 1957.

Feuerbach, Ludwig. The Essence of Christianity. Harper, 1841.

Geertz, Clifford. The Interpretation of Cultures. Basic Books, 1973.

Johnson, Elizabeth A. She Who Is: The Mystery of God in Feminist Theological Discourse. Crossroad, 1992.

Ruether, Rosemary Radford. Sexism and God-Talk: Toward a Feminist Theology. Beacon Press, 1983.

Tillich, Paul. Systematic Theology. University of Chicago Press, 1951.



[1] Clifford James Geertz (São Francisco, 23 de agosto de 1926 — Filadélfia, 30 de outubro de 2006) foi um antropólogo estadunidense, professor emérito da Universidade de Princeton, em Nova Jérsei, nos Estados Unidos. Seu trabalho no Institute for Advanced Study de Princeton se destacou pela análise da prática simbólica no fato antropológico. Foi considerado, por três décadas, o antropólogo mais influente nos Estados Unidos.

[2] Mircea Eliade (Bucareste, 9 de março de 1907 – Chicago, 22 de abril de 1986) foi um professor, cientista das religiões, mitólogo, filósofo e romancista romeno, naturalizado norte-americano em 1970.

[3] Karl Barth (10 de maio de 1886 - 10 de dezembro de 1968) foi um teólogo reformado suíço que é muitas vezes considerado o maior teólogo protestante do século XX. Sua influência expandiu-se muito além do domínio acadêmico, chegando a incorporar a cultura, o que levou a Barth ser apresentado na capa da revista Time em 20 de abril de 1962

[4] Elizabeth A. Johnson CSJ (nascida em 7 de dezembro de 1941) é uma teóloga feminista católica romana . Ela é uma distinta professora emérita de teologia na Fordham University , uma instituição jesuíta na cidade de Nova York e membro das Irmãs de São José de Brentwood. O National Catholic Report”

[5] Ludwig Andreas Feuerbach (Landshut, 28 de julho de 1804 – Rechenberg, Nuremberg, 13 de setembro de 1872) foi um filósofo alemão.[1] Feuerbach é reconhecido pelo ateísmo humanista antropológico e pela influência que o seu pensamento exerce sobre Karl Marx e Sigmund Freud.

[6] Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir (Paris, 9 de janeiro de 1908 – Paris, 14 de abril de 1986), foi uma escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Embora não se considerasse uma filósofa, De Beauvoir teve uma influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista.

[7] Paul Johannes Oskar Tillich (Starzeddel, 20 de agosto de 1886 — Chicago, 22 de outubro de 1965) foi um teólogo alemão-estadounidense e filósofo da religião. Seu trabalho abordou as implicações cruciais para o cristianismo levantadas pelos filósofos existencialistas do século XX e explorou a relação entre teologia e cultura.

[8] Rosemary Radford Ruether (2 de novembro de 1936 - 21 de maio de 2022) foi uma teóloga feminista católica americana conhecida por suas contribuições significativas aos campos da teologia feminista e da teologia ecofeminista . Seus ensinamentos e seus escritos ajudaram a estabelecer essas áreas da teologia como campos distintos de estudo; ela é reconhecida como uma das primeiras acadêmicas a trazer as perspectivas das mulheres sobre a teologia cristã para o discurso acadêmico convencional

[9] Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Mulheres_na_B%C3%ADblia

[10] Idem

[11] Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Mulheres_na_Biblia

[12] No cristianismo, o Espírito Santo é a terceira prosopon da Santíssima Trindade - juntamente com Deus Pai e Deus Filho - e é o Deus onipotente. Ele é visto como sendo uma das pessoas do Deus Triúno, que revelou seu Santo Nome YHWH ao seu povo em Israel, enviou seu Filho Eternamente Gerado Jesus para salvá-los do pecado e da morte e enviou o Espírito Santo para santificar e dar vida à sua Igreja. O Deus Triúno se manifesta como três "pessoas" de uma única substância divina (grego antigo: ousia) chamada Deus.

[13] Os landmarks são princípios antigos e inalteráveis da Maçonaria, que representam a base da fraternidade e são a espinha dorsal das suas tradições e regulamentos. A palavra "landmark" é de origem inglesa e significa "ponto de referência" ou "marcos". Os landmarks são preceitos que visam manter a unidade maçônica mundial, como a obrigatoriedade dos maçons se filiarem a uma Loja e crerem num ser superior, o Grande Arquiteto do Universo. A primeira menção maçônica à palavra "landmark" foi em 1723, na Constituição de Anderson. A Constituição estabelece que as Grandes Lojas podem introduzir novos regulamentos, mas desde que não violem os antigos Landmarks.

[14] Albert Pike (29 de dezembro de 1809, Boston — 2 de Abril de 1891, Washington) foi um advogado, militar, maçom e escritor dos Estados Unidos.

[15] As Institutas da Religião Cristã, em latim Christianae religionis institutio, ou simplesmente As Institutas é a obra principal da teologia de João Calvino.

[16] https://www.recantodasletras.com.br/artigos/2823588

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sábado, 7 de dezembro de 2024

O SONHO NA FILOSOFIA E NA CIÊNCIA - Uma Perspectiva Interdisciplinar

 


O SONHO NA FILOSOFIA E NA CIÊNCIA - Uma Perspectiva Interdisciplinar

Por M.´. I.´. Luis Genaro Ladereche Figoli (Moshe)

G.´. 33°

Estaria a consciência e a subconsciência confinada dentro do cérebro físico, e o sonho um subproduto dela???

Resumo

O sonho é um fenômeno que intriga a humanidade desde tempos imemoriais. Na filosofia, ele foi frequentemente abordado como um tema epistemológico e metafísico, enquanto na ciência, especialmente a partir do século XIX, ele passou a ser estudado sob uma perspectiva neurocientífica e psicológica. Este artigo explora o conceito de sonho na filosofia, destacando contribuições de pensadores como Platão, Aristóteles, Descartes e Freud, e analisa as descobertas científicas que moldaram nossa compreensão moderna do tema, como os estudos sobre o sono REM. Por fim, reflete-se sobre os esforços contemporâneos para integrar as abordagens filosóficas e científicas no entendimento dos sonhos.

Introdução

Os sonhos têm sido objeto de reflexão desde a antiguidade, levantando questões sobre a natureza da mente, a realidade e a imaginação. Na filosofia, os sonhos frequentemente desafiaram os limites do conhecimento, servindo como ponto de partida para questionamentos sobre a verdade e a existência. Paralelamente, a ciência tem buscado descrever os mecanismos neurobiológicos que geram os sonhos. Este artigo propõe uma análise interdisciplinar do sonho, considerando perspectivas filosóficas e científicas de forma integrada.

A influência da cultura na interpretação dos sonhos é um tema amplamente discutido na literatura sobre o fenômeno onírico.

Ao longo da história, diferentes culturas e tradições desenvolveram distintas abordagens e significados para os sonhos, refletindo suas visões de mundo, crenças e valores sociais.

Por exemplo:

Na tradição xamânica de diversos povos indígenas, os sonhos são vistos como uma forma de comunicação com o mundo espiritual e sobrenatural, muitas vezes possuindo um caráter premonitório ou de revelação.

Na cultura chinesa tradicional, os sonhos são interpretados com base no sistema de cosmologia yin-yang e nos princípios da medicina tradicional chinesa, relacionando-os ao equilíbrio de energias no corpo e no universo.

Na psicanálise freudiana, oriunda da cultura ocidental, os sonhos são vistos como a realização disfarçada de desejos inconscientes, refletindo a dinâmica psicológica do indivíduo.

Já na tradição budista, os sonhos são considerados manifestações da mente ilusória e da natureza impermanente da realidade, servindo como um meio de alcançar a iluminação.

Essas diferenças culturais na interpretação dos sonhos refletem não apenas as cosmologias e os sistemas de crenças de cada sociedade, mas também as formas de perceber e organizar a experiência humana. Assim, a cultura desempenha um papel fundamental na atribuição de significados aos fenômenos oníricos.

 

 

O SONHO NA FILOSOFIA

A filosofia explorou os sonhos sob diferentes óticas, principalmente no que diz respeito à epistemologia e à ontologia.

Platão e Aristóteles

Para Platão, os sonhos eram manifestações da alma, frequentemente relacionadas à irracionalidade. Na "República", ele argumenta que, durante os sonhos, as paixões e os desejos reprimidos emergem, revelando aspectos ocultos da nossa psique (Platão, 2007). Por outro lado, Aristóteles, em "Sobre os Sonhos", abordou o tema de forma mais naturalista, sugerindo que os sonhos eram produtos da atividade sensorial residual no cérebro durante o sono (Aristóteles, 2006). Ele foi um dos primeiros a propor uma explicação fisiológica para os sonhos, separando-os do campo meramente espiritual.

Descartes e o Ceticismo

No racionalismo cartesiano, os sonhos desempenham um papel crucial no questionamento da certeza do conhecimento. Em suas "Meditações Metafísicas", Descartes utiliza o sonho como exemplo para argumentar que os sentidos podem ser enganosos, levando-o a duvidar de toda a experiência sensorial (Descartes, 2001). O famoso "argumento do sonho" levanta a possibilidade de que toda a nossa percepção da realidade possa ser um sonho, destacando a fragilidade da confiança nos sentidos.

Freud e o Inconsciente

Com Sigmund Freud, os sonhos ganharam uma nova dimensão no campo da psicanálise. Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud (1996) argumenta que os sonhos são a via régia para o inconsciente, revelando desejos reprimidos e conflitos internos. Ele propôs que os sonhos possuem um conteúdo manifesto (aquilo que é lembrado) e um conteúdo latente (os desejos inconscientes). Essa abordagem marcou uma ruptura com explicações filosóficas e científicas anteriores, introduzindo o sonho como ferramenta terapêutica e objeto de análise psicológica.

 

O SONHO NA CIÊNCIA

Com o avanço das neurociências, os sonhos passaram a ser estudados como fenômenos biológicos e psicológicos.

A Descoberta do Sono REM

A descoberta do sono REM (Rapid Eye Movement) na década de 1950, por Eugene Aserinsky e Nathaniel Kleitman, revolucionou o estudo dos sonhos (Aserinsky & Kleitman, 1953). Durante o sono REM, o cérebro apresenta uma intensa atividade elétrica, semelhante à da vigília, e é nesse estágio que a maior parte dos sonhos vívidos ocorre. Essa descoberta permitiu correlacionar os sonhos com processos neurofisiológicos, deslocando as explicações puramente psicológicas.

A Neurociência dos Sonhos

Pesquisadores como Allan Hobson e Robert McCarley propuseram teorias baseadas na atividade cerebral. A "hipótese da ativação-síntese", de Hobson e McCarley (1977), sugere que os sonhos são produtos da tentativa do cérebro de dar sentido à atividade neural aleatória durante o sono REM. Por outro lado, Mark Solms (1997) defendeu a importância do córtex pré-frontal na geração de sonhos, enfatizando o papel das emoções e da motivação.

Psicologia Cognitiva

Além da neurociência, a psicologia cognitiva também contribuiu para o estudo dos sonhos. Pesquisadores como Rosalind Cartwright (2010) destacaram o papel dos sonhos na regulação emocional, sugerindo que eles ajudam a processar experiências traumáticas e a consolidar memórias.

 

FILOSOFIA E CIÊNCIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL

Embora a filosofia e a ciência muitas vezes adotem abordagens distintas, o estudo dos sonhos revela pontos de convergência. Questões levantadas por filósofos, como a relação entre sonhos e realidade, continuam sendo relevantes para cientistas que investigam os mecanismos neurais e psicológicos dos sonhos. Além disso, a ideia freudiana de que os sonhos têm significados ocultos encontra ressonância em estudos contemporâneos sobre a relação entre sonhos e emoções.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sonho permanece como um campo fértil para o diálogo entre filosofia e ciência. Enquanto a filosofia levanta questões fundamentais sobre a natureza da mente e da realidade, a ciência oferece ferramentas para investigar os mecanismos subjacentes aos sonhos. No futuro, a integração entre essas abordagens poderá ampliar nossa compreensão sobre a mente humana e suas manifestações oníricas.

 

Referências

Aristóteles. (2006). Sobre os Sonhos. São Paulo: Editora Martin Claret.

Aserinsky, E., & Kleitman, N. (1953). "Regularly occurring periods of eye motility, and concomitant phenomena, during sleep". Science, 118(3062), 273-274.

Cartwright, R. (2010). The Twenty-four Hour Mind: The Role of Sleep and Dreaming in Our Emotional Lives. Oxford: Oxford University Press.

Descartes, R. (2001). Meditações Metafísicas. São Paulo: Editora Martins Fontes.

Freud, S. (1996). A Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeiro: Imago.

Hobson, J. A., & McCarley, R. W. (1977). "The Brain as a Dream State Generator: An Activation-Synthesis Hypothesis of the Dream Process". American Journal of Psychiatry, 134(12), 1335-1348.

Platão. (2007). A República. São Paulo: Editora Martins Fontes.

Solms, M. (1997). The Neuropsychology of Dreams: A Clinico-Anatomical Study. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates.

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